21/01/2026
Você está em ciclos viciosos nos relacionamentos? Você já percebeu alguém que parece viver a mesma história amorosa com personagens diferentes? As vezes nem o nome muda! Muda o rosto, mas o roteiro é o mesmo: abandono, desrespeito, traição, violência emocional ou instabilidade.
Na psicanálise, isso não é visto como falta de sorte, ingenuidade ou escolha consciente equivocada. Trata-se de um funcionamento psíquico inconsciente chamado compulsão à repetição.
Sigmund Freud observou que o ser humano tende a repetir experiências emocionais antigas, mesmo quando elas causam sofrimento. O inconsciente tenta, de forma falha, reviver o passado para dar a ele um novo desfecho.
Ou seja, a pessoa não repete porque gosta de sofrer, ela repete porque algo não foi elaborado.
Imagine uma mulher que, desde a adolescência, só se envolve com homens agressivos, frios ou indisponíveis emocionalmente.
Ela diz:
“No começo eles são maravilhosos, depois mudam. Eu sempre faço tudo por eles e acabo sozinha.”
Ao longo do processo analítico, surge a história da infância:
Um pai emocionalmente ausente
Uma mãe sobrecarregada e pouco disponível afetivamente
A criança aprende, sem perceber, que amor vem com esforço, espera e dor
Na vida adulta, o psiquismo busca aquilo que é familiar, não aquilo que é saudável.
👉 Um homem emocionalmente estável pode parecer “sem graça” ou “estranho”.
👉 Já o homem instável ativa algo conhecido: a tentativa de finalmente ser vista, escolhida e amada.
A psicanálise chama isso de escolha objetal inconsciente.
Não escolhemos apenas com a razão, mas com nossas marcas afetivas.
Muitas vezes escolhemos parceiros que:
Se parecem com figuras importantes da infância
Reproduzem vínculos primários
Confirmam crenças internas como:
“Preciso sofrer para ser amada”
“Se eu me esforçar mais, o outro muda”
“Amor é instabilidade”
Jacques Lacan amplia essa compreensão ao falar do gozo — um tipo de sofrimento que, apesar de doloroso, sustenta a identidade do sujeito.
Algumas pessoas se organizam inconscientemente em torno da posição:
“Eu sou aquela que sempre sofre por amor.”
Sair desse lugar provoca angústia, porque exige:
Abrir mão de uma identidade conhecida
Enfrentar o novo
Correr o risco de um vínculo diferente
Porque não basta “entender racionalmente”.
Muitas dessas pessoas dizem:
“Eu sei que não é bom pra mim, mas não consigo sair.”
Isso acontece porque o padrão não está só na cabeça, está no desejo.
Além disso, podem existir:
Culpa inconsciente
Sentimento de não merecimento
Autossabotagem afetiva
Como se, no fundo, a pessoa acreditasse que relações saudáveis não são para ela.
A psicanálise não oferece fórmulas prontas nem conselhos rápidos.
Ela oferece algo mais profundo: escuta.
Ao longo do processo analítico, o sujeito pode:
Reconhecer o padrão que se repete
Entender de onde ele vem
Dar palavras ao que antes era apenas atuação
Criar novas possibilidades de escolha
💬 Quando o inconsciente é escutado, a repetição perde força.
Luiz, como sair disso?
Enquanto a história não é elaborada, ela se repete.
Enquanto o sujeito não reconhece seu lugar no ciclo, ele retorna a ele.
A psicanálise nos lembra:
Não repetimos porque queremos, repetimos porque algo em nós insiste em ser escutado.
E só quando isso acontece, a pessoa deixa de reviver o passado e começa, de fato, a escolher o presente.